Vozes verbais são as formas pelas quais o verbo expressa a relação entre o sujeito da oração e a ação verbal. Em português, as principais são a voz ativa, a voz passiva e a voz reflexiva. Identificá-las ajuda a compreender quem pratica, recebe ou pratica e recebe uma ação, além de ser importante em análises sintáticas e na produção de textos.
O que são vozes verbais?
A voz verbal não deve ser confundida com o tempo ou o modo do verbo. O tempo informa quando algo ocorre, como no presente ou no passado; o modo indica a atitude do falante, como certeza, hipótese ou ordem. Já a voz mostra a posição do sujeito diante da ação.
Observe a oração: Os pesquisadores analisaram os dados. O sujeito os pesquisadores realiza a ação de analisar. Por isso, o verbo está na voz ativa. Agora veja: Os dados foram analisados pelos pesquisadores. Nessa construção, o sujeito os dados recebe a ação. Trata-se de voz passiva.
Assim, para reconhecer a voz, é necessário localizar primeiro o verbo e depois perguntar qual é a relação do sujeito com o que ele expressa. O sujeito age? Sofre ou recebe a ação? Age sobre si próprio? As respostas conduzem à classificação adequada.
Atenção: só é possível haver voz passiva quando o verbo é transitivo direto ou transitivo direto e indireto, isto é, quando há objeto direto na construção ativa. Verbos intransitivos, de ligação e transitivos indiretos não formam passiva de acordo com a norma-padrão.
Voz ativa
Na voz ativa, o sujeito é o agente da ação verbal. Isso significa que ele pratica ou desencadeia o fato indicado pelo verbo. É a construção mais comum na comunicação cotidiana e costuma apresentar uma ordem direta: sujeito, verbo e complemento.
Na frase A escola promoveu uma feira de ciências, o sujeito é a escola, o verbo é promoveu e o objeto direto é uma feira de ciências. A escola realizou a promoção; portanto, a oração está na voz ativa.
Como identificar a voz ativa
- Localize o sujeito da oração.
- Verifique se ele realiza a ação indicada pelo verbo.
- Quando houver objeto direto, confira se ele recebe a ação praticada pelo sujeito.
Outros exemplos são: A atleta venceu a corrida; Os estudantes resolveram o exercício; O governo anunciou novas medidas. Em todos eles, os sujeitos — atleta, estudantes e governo — são agentes das ações.
A voz ativa pode ser escolhida para dar mais clareza a um texto, pois evidencia quem é responsável por uma ação. Em textos informativos, por exemplo, dizer A equipe divulgou os resultados é mais direto do que ocultar o agente em uma construção passiva.
Voz passiva
Na voz passiva, o sujeito recebe a ação verbal. Ele é chamado de sujeito paciente, pois não a pratica: é afetado por ela. O agente, quando aparece, recebe o nome de agente da passiva e geralmente é introduzido pela preposição por ou por suas contrações, como pelo e pela.
Há duas formas principais de voz passiva: a analítica e a sintética, também chamada de pronominal. A diferença está na estrutura usada para apresentar a ação.
Voz passiva analítica
A passiva analítica é formada, em geral, pelo verbo auxiliar ser mais o particípio do verbo principal. Por exemplo: O projeto foi aprovado pelos vereadores. O sujeito paciente é o projeto; foi aprovado é a locução verbal passiva; e pelos vereadores é o agente da passiva.
O auxiliar pode aparecer em vários tempos verbais: As inscrições serão abertas amanhã; As inscrições eram abertas no início do ano; As inscrições tinham sido abertas anteriormente. O particípio concorda com o sujeito paciente: O texto foi revisado; As redações foram revisadas.
Voz passiva sintética
A passiva sintética é formada por verbo transitivo direto, ou direto e indireto, acompanhado do pronome apassivador se. Em Vendem-se livros usados, livros usados é o sujeito paciente. Isso se comprova pela concordância: no singular, dizemos Vende-se um livro usado; no plural, Vendem-se livros usados.
| Tipo de voz | Exemplo | Relação do sujeito com a ação |
|---|---|---|
| Ativa | Os alunos organizaram o evento. | O sujeito pratica a ação. |
| Passiva analítica | O evento foi organizado pelos alunos. | O sujeito recebe a ação. |
| Passiva sintética | Organizou-se o evento. | O sujeito recebe a ação. |
| Reflexiva | O aluno se feriu. | O sujeito pratica e recebe a ação. |
Como transformar a voz ativa em passiva
A passagem da ativa para a passiva exige atenção à função sintática dos termos, e não apenas à troca de palavras. O objeto direto da oração ativa torna-se sujeito paciente na passiva. O sujeito agente da ativa pode se transformar em agente da passiva.
Veja o processo com a oração Os técnicos consertaram o equipamento. Primeiro, identificamos os elementos: os técnicos é sujeito; consertaram é o verbo; o equipamento é objeto direto. Na passiva analítica, temos: O equipamento foi consertado pelos técnicos.
- Encontre o objeto direto da frase ativa.
- Coloque esse objeto na posição de sujeito paciente.
- Use o verbo ser no mesmo tempo e modo do verbo original.
- Empregue o verbo principal no particípio, concordando com o novo sujeito.
- Introduza o antigo sujeito com por, caso seja relevante mencioná-lo.
Em A comissão avaliará as propostas, o verbo está no futuro do presente. A forma passiva correspondente é As propostas serão avaliadas pela comissão. Note que avaliará se torna serão avaliadas, preservando a ideia de futuro e estabelecendo concordância com propostas.
Nem toda frase ativa pode ser convertida em passiva. A oração Os turistas gostam da cidade não admite a forma passiva padrão, pois gostar é transitivo indireto: exige o complemento introduzido por de. Não existe objeto direto que possa assumir a função de sujeito paciente.
Voz reflexiva
Na voz reflexiva, o sujeito pratica e recebe a ação ao mesmo tempo. O pronome oblíquo átono indica que a ação retorna ao próprio sujeito. Em Marina penteou-se, Marina é quem penteia e quem é penteada. O pronome se equivale, nesse caso, a a si mesma.
Além de se, podem ocorrer os pronomes me, te, nos e vos: Eu me preparei para a apresentação; Tu te machucaste; Nós nos encontramos no laboratório. A análise depende do sentido expresso no contexto.
Voz reflexiva recíproca
Existe ainda a construção reflexiva recíproca, em que dois ou mais sujeitos praticam ações uns sobre os outros. Em Os amigos se abraçaram, cada amigo abraçou o outro. Para evitar ambiguidades, podem ser usadas expressões como um ao outro, entre si ou mutuamente: Os adversários respeitaram-se mutuamente.
Não se deve classificar automaticamente como reflexiva toda oração que contenha se. Esse pronome desempenha funções variadas na língua portuguesa, e a interpretação da frase é indispensável.
Casos que geram dúvida
Uma dúvida frequente envolve a diferença entre passiva sintética e índice de indeterminação do sujeito. Compare: Alugam-se casas e Precisa-se de voluntários. Na primeira, casas é sujeito paciente, pois o verbo alugar é transitivo direto e concorda no plural. A frase equivale a Casas são alugadas.
Na segunda, o verbo precisar, com o sentido de necessitar, é transitivo indireto: quem precisa, precisa de algo. Por isso, de voluntários não é sujeito, e o se indetermina o sujeito. O verbo permanece no singular: Precisa-se de voluntários, e não Precisam-se de voluntários.
Também há verbos pronominais, que exigem pronome como parte de sua estrutura e não representam voz reflexiva. Em Ela se arrependeu da decisão, o verbo é arrepender-se. Não faz sentido dizer que ela arrependeu a si mesma; logo, não há ação refletida sobre o sujeito.
Uma estratégia útil é tentar reescrever a oração com a si mesmo ou uns aos outros. Se a substituição fizer sentido, pode haver reflexividade. Se a construção puder ser reescrita com o verbo ser mais particípio, pode haver passiva.
Revisão das vozes verbais
As vozes verbais revelam o papel do sujeito diante da ação. Na voz ativa, o sujeito é agente: A pesquisadora publicou o artigo. Na passiva, ele é paciente: O artigo foi publicado pela pesquisadora. Na reflexiva, ele age sobre si: A pesquisadora se preparou.
Para revisar o tema, observe sempre a transitividade verbal, identifique sujeito e complementos e analise o valor do pronome se. Na transformação entre ativa e passiva, preserve o tempo e o modo verbal, além da concordância do particípio com o sujeito paciente. Esse procedimento torna a análise mais segura e evita confundir construções parecidas.
Pontos essenciais: voz ativa apresenta sujeito agente; voz passiva apresenta sujeito paciente; voz reflexiva indica que o sujeito pratica e recebe a ação. A presença de se, por si só, não basta para definir a voz de uma oração.