Concordância verbal é a relação de número e pessoa entre o verbo e o sujeito da oração. Em geral, se o sujeito está no singular, o verbo fica no singular; se está no plural, o verbo vai para o plural. Porém, estruturas como sujeito composto, porcentagens, expressões partitivas e verbos impessoais exigem atenção, pois seguem regras próprias.
O que é concordância verbal
Na oração, o verbo deve adequar sua forma ao núcleo do sujeito, isto é, à palavra mais importante que indica quem pratica, sofre ou vivencia o fato expresso pelo verbo. Essa adequação aparece principalmente no número, singular ou plural, e na pessoa do discurso: primeira, segunda ou terceira.
Em “Os estudantes revisaram o conteúdo”, o núcleo do sujeito é “estudantes”. Como ele está na terceira pessoa do plural, o verbo “revisaram” também está no plural. Já em “A estudante revisou o conteúdo”, tanto o núcleo quanto o verbo estão no singular.
É importante não confundir sujeito com termos próximos ao verbo. Em “A lista de exercícios trouxe questões difíceis”, o verbo fica no singular porque o núcleo do sujeito é “lista”, e não “exercícios”. Reconhecer essa palavra central evita muitos desvios de concordância.
Dica de análise: antes de escolher a forma verbal, pergunte “quem é que realiza ou apresenta essa ação?”. A resposta costuma revelar o sujeito e seu núcleo.
A regra básica: localizar o sujeito
O sujeito simples possui apenas um núcleo. Com ele, a concordância é direta: verbo no singular para núcleo singular e verbo no plural para núcleo plural. Os complementos do nome e as palavras introduzidas por preposição não mudam essa regra.
| Oração | Núcleo do sujeito | Forma do verbo |
|---|---|---|
| A explicação do professor esclareceu a dúvida. | explicação | singular |
| As explicações do professor esclareceram a dúvida. | explicações | plural |
| O grupo de alunos participou do debate. | grupo | singular |
| Os alunos do grupo participaram do debate. | alunos | plural |
Quando o sujeito é representado por pronomes pessoais, a pessoa verbal acompanha o pronome: “Eu compreendi”, “Nós compreendemos”, “Tu compreendeste” e “Eles compreenderam”. No português brasileiro, “você” exige verbo na terceira pessoa: “Você compreendeu”; “vocês” também: “Vocês compreenderam”.
Em frases invertidas, o verbo pode aparecer antes do sujeito, mas a regra permanece. Em “Chegaram os resultados da pesquisa”, o sujeito é “os resultados”, que está no plural. Por isso, não se deve presumir que o primeiro termo da oração seja sempre o sujeito.
Concordância com sujeito composto
O sujeito composto tem dois ou mais núcleos. Quando aparece antes do verbo, a regra mais comum é usar o verbo no plural: “O livro e o caderno estavam sobre a mesa”. Ainda que cada núcleo esteja no singular, a soma deles leva o verbo ao plural.
Se o sujeito composto vier depois do verbo, há duas possibilidades aceitas pela norma-padrão. O verbo pode ficar no plural, concordando com todos os núcleos: “Chegaram a coordenadora e os monitores”. Também pode concordar com o núcleo mais próximo: “Chegou a coordenadora e os monitores”. Em textos formais, a forma plural costuma ser mais clara e recomendável.
Núcleos ligados por ou e nem
Com a conjunção “ou”, é preciso observar o sentido. Se ela indica exclusão, o verbo fica no singular: “Pedro ou Marina será responsável pela apresentação”. Se a ideia for de inclusão ou alternância abrangente, o plural é possível: “Português ou matemática exigem prática constante”.
Com “nem... nem”, o uso mais frequente é o plural: “Nem o diretor nem os alunos concordaram com a mudança”. Se os núcleos forem entendidos como uma unidade ou se estiverem depois do verbo, pode ocorrer o singular, mas o plural tende a tornar a relação mais explícita.
Pessoas gramaticais diferentes
Se houver “eu” entre os núcleos, o verbo normalmente vai para a primeira pessoa do plural: “Meus colegas e eu organizamos o seminário”. Havendo “tu” e a terceira pessoa, a tradição gramatical admite “Tu e teus amigos participareis”; no uso brasileiro corrente, também é comum a terceira pessoa do plural: “Tu e teus amigos participarão”.
Casos especiais de sujeito
Algumas expressões exigem análise do sentido e do núcleo. Com coletivos, o verbo costuma ficar no singular, pois o núcleo é coletivo: “A multidão ocupou a praça” e “O grupo de pesquisadores publicou o relatório”. Se houver uma ideia de indivíduos destacada, pode surgir o plural em determinados contextos, especialmente quando o verbo está distante do coletivo.
Em expressões partitivas, como “a maioria de”, “grande parte de”, “metade de” e “uma porção de”, o verbo pode concordar com o núcleo da expressão ou com o termo plural introduzido por “de”: “A maioria dos candidatos faltou” ou “A maioria dos candidatos faltaram”. As duas construções são aceitas, mas é importante manter a coerência no período.
Com porcentagens, a concordância depende da expressão que acompanha o número. Em “Trinta por cento da turma faltou”, a referência é singular; em “Trinta por cento dos estudantes faltaram”, é plural. Quando a porcentagem aparece sozinha, é comum concordar com o número: “Vinte por cento compareceram”.
- Mais de um aluno faltou à aula.
- Mais de um aluno se cumprimentaram, pois a ação é recíproca.
- Quais de vocês participarão do debate?
- Um dos livros que mais me ajudaram foi este.
Na expressão “mais de um”, o singular é a regra. O plural aparece quando há reciprocidade, repetição da expressão ou ideia clara de pluralidade. Já em “um dos que”, a forma plural é a mais recomendada, pois o pronome relativo “que” retoma um conjunto: “os livros”.
Verbos impessoais: haver e fazer
Verbos impessoais não têm sujeito e, por isso, permanecem na terceira pessoa do singular. Esse é um dos tópicos mais cobrados em exercícios de gramática. O verbo “haver” é impessoal quando significa “existir”, “ocorrer” ou indica tempo decorrido: “Havia muitas dúvidas”, “Houve problemas” e “Há dois anos estudo aqui”.
Assim, construções como “haviam muitos problemas” não seguem a norma-padrão nesse sentido. Mesmo com locução verbal, o auxiliar fica no singular: “Deve haver alternativas” e “Pode ter havido falhas”. Note que “haver” pode ser pessoal quando é auxiliar de outro verbo ou quando tem o sentido de possuir: “Eles haviam chegado” e, em uso literário, “Ele havia um carro”.
O verbo “fazer” também é impessoal ao indicar tempo transcorrido ou fenômeno climático: “Faz três meses que comecei o curso” e “Faz dias frios nesta região”. Portanto, na norma-padrão, não se escreve “fazem três meses” quando “fazer” expressa tempo decorrido.
O emprego de se e da expressão é que
O “se” pode ter funções distintas, e cada uma afeta a concordância. Quando atua como partícula apassivadora, acompanha verbo transitivo direto e permite identificar um sujeito paciente. Nesse caso, o verbo concorda com esse sujeito: “Vendem-se apartamentos” e “Alugam-se salas”. Os apartamentos e as salas são aquilo que é vendido ou alugado.
Quando o “se” é índice de indeterminação do sujeito, o verbo fica obrigatoriamente no singular. Isso ocorre com verbo intransitivo, transitivo indireto ou de ligação: “Precisa-se de voluntários”, “Vive-se bem aqui” e “Era-se mais paciente antigamente”. Em “precisa-se de voluntários”, o termo com “de” não é sujeito; é complemento do verbo.
Na expressão “é que”, o verbo “ser” concorda com o termo que recebe destaque: “Somos nós que devemos revisar” e “São os capítulos finais que merecem atenção”. Em registros informais, é comum ouvir “é os capítulos”, mas a concordância plural é a forma prevista pela norma-padrão.
Pontos de revisão
Para resolver questões de concordância verbal, comece localizando o verbo e identificando seu sujeito. Em seguida, determine o núcleo do sujeito e verifique se há elementos que criam casos especiais, como coletivos, porcentagens, expressões partitivas, “se” ou os verbos “haver” e “fazer”.
- Não concorde o verbo automaticamente com a palavra mais próxima.
- Em sujeito composto antes do verbo, prefira o plural.
- Com “haver” no sentido de existir e “fazer” indicando tempo, use o singular.
- Em “vendem-se casas”, há concordância; em “precisa-se de funcionários”, o verbo fica no singular.
- Leia a oração inteira e observe o sentido, principalmente com “ou”, coletivos e porcentagens.
A concordância verbal não depende apenas de decorar terminações. Ela resulta da análise da estrutura da oração e do significado das palavras. Com a identificação segura do sujeito e a prática de exemplos variados, as escolhas verbais se tornam mais conscientes em textos e avaliações.