As competências da redação do ENEM são cinco critérios usados para avaliar o texto dissertativo-argumentativo, cada um valendo até 200 pontos. Conhecê-las permite entender por que uma redação pode ter boas ideias, mas perder pontos por falhas de linguagem, organização ou detalhamento da proposta de intervenção. Os exemplos prontos deste guia servem como modelos de análise: eles mostram estratégias que precisam ser adaptadas ao tema solicitado, e não frases para decorar.
A redação do exame exige um posicionamento sobre um problema social apresentado na proposta. O participante deve construir uma tese, defendê-la com argumentos consistentes e apresentar uma intervenção que respeite os direitos humanos. A correção considera tanto o conteúdo quanto a forma pela qual ele é desenvolvido.
Como funcionam as competências da redação do ENEM
A nota total vai de 0 a 1.000 pontos. Dois avaliadores corrigem cada texto de maneira independente, considerando as cinco competências. Em cada uma, a pontuação pode ser 0, 40, 80, 120, 160 ou 200 pontos. Se houver grande diferença entre as notas dadas, a redação passa por nova avaliação.
As competências não devem ser vistas como partes isoladas. Uma tese pouco clara pode prejudicar a compreensão dos argumentos; conectivos mal empregados podem enfraquecer a progressão das ideias; e uma intervenção vaga pode não resolver o problema analisado. Ainda assim, saber a função de cada critério facilita o planejamento e a revisão.
| Competência | O que é avaliado | Foco prático |
|---|---|---|
| 1 | Norma-padrão da língua portuguesa | Escrita formal e legível |
| 2 | Compreensão do tema e repertório | Tese pertinente ao recorte |
| 3 | Argumentação | Defesa organizada do ponto de vista |
| 4 | Coesão textual | Conexão entre frases e parágrafos |
| 5 | Proposta de intervenção | Solução detalhada e respeitosa |
Atenção: fugir completamente ao tema, não escrever texto dissertativo-argumentativo ou inserir uma parte deliberadamente desconectada do assunto pode levar à nota zero. Também recebem zero textos muito curtos, em branco ou com formas de identificação do participante.
Competência 1: domínio da norma-padrão
A Competência 1 avalia o uso da modalidade formal escrita. Isso inclui ortografia, acentuação, concordância, regência, pontuação, escolha vocabular e estrutura das frases. Não significa empregar palavras difíceis: o mais importante é escrever com clareza e correção, evitando marcas excessivas da oralidade.
Compare os trechos a seguir, imaginando um texto sobre desinformação digital:
Forma pouco adequada: “As fake news prejudica muita gente, porque as pessoa compartilha sem pensar nas consequência.”
Forma revisada: “As notícias falsas prejudicam muitas pessoas, pois são compartilhadas sem reflexão sobre suas consequências.”
Na revisão, foram corrigidos problemas de concordância nominal e verbal, além de escolhas vocabulares. A segunda frase também apresenta maior formalidade. Contudo, uma redação não precisa ser inteiramente composta por períodos longos. Frases muito extensas, com muitas vírgulas, aumentam o risco de erro e de ambiguidade.
Como revisar esse critério
- Verifique se o verbo concorda com o sujeito, especialmente em sujeitos longos.
- Observe o uso de crase, vírgulas e pronomes, sem tentar aplicar regras que você não domina.
- Prefira palavras cujo sentido e grafia sejam conhecidos.
- Leia o período procurando repetições, trechos incompletos e construções ambíguas.
Competência 2: tema, projeto de texto e repertório
A Competência 2 observa se o participante compreendeu o tema, desenvolveu o gênero dissertativo-argumentativo e utilizou conhecimentos de diferentes áreas de modo produtivo. O tema do ENEM costuma ter um recorte específico. Por isso, discutir apenas um assunto amplo relacionado a ele não basta.
Se a proposta tratasse dos desafios para combater a desinformação sobre saúde no Brasil, uma redação sobre “os perigos gerais da internet” poderia ficar superficial. Seria necessário relacionar a discussão à saúde, ao contexto brasileiro e ao enfrentamento do problema. A tese deve responder a esse recorte.
Exemplo de tese pertinente: “A circulação de desinformação sobre saúde no Brasil persiste devido à baixa educação midiática da população e à insuficiência de mecanismos de responsabilização das plataformas digitais.”
Esse trecho apresenta uma posição e anuncia dois caminhos argumentativos. O repertório sociocultural pode incluir fatos históricos, conceitos, obras, pesquisas, leis ou acontecimentos atuais. Para ser produtivo, ele precisa ser correto, relacionado ao argumento e explicado. Apenas mencionar uma série, um filósofo ou uma lei não fortalece automaticamente o texto.
Por exemplo, ao citar a Constituição Federal, é preciso explicar a conexão: o direito à saúde previsto no texto constitucional pode ser usado para demonstrar que a circulação de informações falsas dificulta o acesso consciente a cuidados e serviços. Evite repertórios decorados que poderiam ser colocados em qualquer tema sem mudança significativa.
Competência 3: seleção e organização dos argumentos
Na Competência 3, avalia-se a maneira como as informações, fatos, opiniões e argumentos são selecionados e organizados para defender um ponto de vista. Uma estrutura frequente e funcional é: introdução com tese, dois parágrafos de desenvolvimento e conclusão com intervenção. Porém, a qualidade depende da relação lógica entre as partes, não da simples presença dessa divisão.
Cada desenvolvimento pode seguir um percurso: apresentar uma ideia central, explicar suas causas ou efeitos, mobilizar um repertório e retomar a tese. Veja um exemplo de início de parágrafo:
“Em primeiro lugar, a ausência de formação para a leitura crítica de conteúdos digitais favorece a aceitação de informações sem comprovação. Nesse cenário, muitos usuários compartilham mensagens de aparência confiável sem verificar a fonte, prática que amplia a exposição coletiva a orientações prejudiciais à saúde.”
O trecho não se limita a afirmar que falta educação midiática: ele explica como essa carência contribui para o problema. Para obter melhor desempenho, evite argumentos circulares, como dizer que a desinformação cresce porque há muitas notícias falsas. É necessário indicar fatores, consequências, agentes envolvidos ou processos sociais que sustentem a análise.
Competência 4: mecanismos linguísticos de argumentação
A Competência 4 examina os recursos que conectam ideias dentro de uma frase, entre frases e entre parágrafos. Esses mecanismos incluem conjunções, pronomes, advérbios, sinônimos e elipses, isto é, omissões de termos já compreendidos pelo contexto. Coesão não é encher o texto de conectivos; é estabelecer relações compreensíveis entre as ideias.
Alguns conectivos indicam relações específicas:
- adição: além disso, também, ademais;
- causa: porque, visto que, uma vez que;
- consequência: portanto, assim, desse modo;
- contraste: entretanto, contudo, apesar disso;
- conclusão: logo, em síntese, por conseguinte.
Em vez de repetir “desinformação” em todas as frases, o autor pode usar expressões como “esse fenômeno”, “tal prática” ou “a circulação de conteúdos falsos”, desde que o referente permaneça claro. Também é importante não usar um conectivo com sentido inadequado. “Portanto”, por exemplo, introduz conclusão; não deve abrir um exemplo ou uma causa.
Exemplo de progressão: “As plataformas ampliam a velocidade de circulação das mensagens. Além disso, seus sistemas de recomendação podem aumentar a visibilidade de conteúdos enganosos. Consequentemente, o alcance da desinformação torna-se maior.”
Competência 5: proposta de intervenção
A Competência 5 avalia a elaboração de uma proposta para enfrentar o problema discutido. Ela deve estar ligada aos argumentos desenvolvidos, ser viável em termos gerais e respeitar os direitos humanos. Uma intervenção eficiente costuma explicitar cinco elementos: agente, ação, meio ou modo, finalidade e detalhamento.
Considere a seguinte proposta relacionada à desinformação sobre saúde:
“Portanto, o Ministério da Saúde deve promover campanhas permanentes de educação midiática, por meio da divulgação de materiais didáticos em escolas, unidades básicas de saúde e redes sociais, a fim de ensinar a população a verificar fontes e reconhecer conteúdos enganosos. As campanhas devem incluir orientações sobre canais oficiais de informação, para reduzir o compartilhamento de recomendações sem embasamento científico.”
O agente é o Ministério da Saúde; a ação é promover campanhas; o meio envolve materiais e espaços de divulgação; a finalidade é ensinar verificação de fontes; e o detalhamento indica o conteúdo das orientações. A proposta dialoga com o argumento sobre falta de leitura crítica.
Não basta escrever “o governo deve resolver o problema” ou “as pessoas precisam se conscientizar”. Essas fórmulas são vagas porque não esclarecem quem agirá, como a ação ocorrerá nem qual aspecto do problema será enfrentado. Também não são aceitas medidas que defendam violência, censura indiscriminada ou retirada de direitos.
Revisão das cinco competências
Antes de passar a redação a limpo, faça uma revisão orientada pelos critérios. Ela ajuda a perceber se o texto está completo e se os parágrafos cumprem uma função argumentativa definida.
- Confirme se o tema foi respondido exatamente conforme o recorte apresentado.
- Localize a tese na introdução e verifique se os desenvolvimentos a defendem.
- Revise concordância, ortografia, pontuação e palavras repetidas em excesso.
- Cheque se há conectivos com sentido apropriado entre as ideias.
- Identifique agente, ação, meio, finalidade e detalhamento na conclusão.
Em síntese, dominar as competências significa construir um texto formal, tematicamente pertinente, argumentado, coeso e propositivo. Os exemplos prontos são úteis quando revelam a lógica de construção de cada parte. Na prática, a preparação mais consistente envolve ler propostas anteriores, escrever sobre temas variados, receber correções e revisar os próprios erros recorrentes.