As obras de Candido Portinari para educação infantil são recursos valiosos para conversar com as crianças sobre cores, formas, pessoas, brincadeiras e modos de viver no Brasil. Ao observar pinturas do artista, a turma pode expressar o que percebe, imaginar histórias e fazer criações próprias com desenho, pintura, colagem, corpo e movimento.
O contato com obras de arte na infância não tem como objetivo formar pequenos especialistas nem pedir que reproduzam uma imagem fielmente. A proposta é ampliar o repertório cultural, favorecer a sensibilidade e criar ocasiões para que cada criança olhe, fale, escute e invente. Portinari é especialmente interessante porque retratou cenas do cotidiano brasileiro, incluindo jogos e brincadeiras que podem ser reconhecidos ou comparados com as experiências atuais.
Por que trabalhar Portinari na educação infantil?
A arte é uma linguagem pela qual as crianças comunicam ideias, sentimentos e descobertas. Quando a educadora apresenta uma pintura, ela convida o grupo a reparar em detalhes: quem aparece na cena, quais são as cores, o que as figuras parecem estar fazendo, como é o lugar e que sons ou movimentos poderiam existir ali.
As pinturas de Portinari permitem experiências desse tipo porque abordam pessoas, festas, jogos, famílias, trabalhadores e paisagens. Muitas obras mostram crianças em grupo, correndo, soltando pipa ou jogando bola. Esses temas ajudam a estabelecer relações com o brincar, que é central na educação infantil, sem transformar a apreciação artística em uma aula de respostas prontas.
O trabalho também contribui para apresentar um artista brasileiro e para valorizar referências culturais do país. Ao conhecer imagens produzidas em outro tempo, as crianças podem perceber que costumes, roupas, espaços e brinquedos mudam, mas que brincar, conviver e imaginar fazem parte de muitas infâncias.
Ideia central: em vez de perguntar apenas “que desenho é esse?”, proponha questões abertas, como “o que você acha que aconteceu antes desta cena?” e “como você faria esse céu ou esse chão?”. Não existe uma única resposta correta para a interpretação de uma obra.
Quem foi Candido Portinari?
Candido Portinari foi um pintor brasileiro, nascido em 1903, em Brodowski, no interior de São Paulo, e falecido em 1962. Filho de imigrantes italianos que trabalhavam em fazendas de café, cresceu em contato com a vida rural. Sua trajetória, suas observações e sua formação artística aparecem em muitos temas de sua produção.
Portinari realizou pinturas, murais, desenhos e outras obras. Ele retratou trabalhadores rurais, retirantes, crianças, festas populares, personagens religiosos e paisagens. Em algumas imagens, os personagens têm pés ou mãos grandes e corpos alongados. Essas escolhas não são erros: fazem parte de sua maneira de representar pessoas, movimentos e experiências sociais.
Para as crianças pequenas, a biografia deve ser breve e relacionada à observação. Pode-se dizer que ele era um artista que gostava de pintar pessoas e cenas do Brasil. Aos poucos, conforme a faixa etária e o interesse do grupo, é possível acrescentar informações sobre a cidade onde viveu, seu trabalho como pintor e os temas que escolhia.
Obras para apresentar às crianças
A seleção precisa considerar tanto a qualidade da imagem quanto a sensibilidade do tema. O acervo de Portinari inclui obras que abordam pobreza, migração e sofrimento; elas são importantes para o estudo da história e da arte, mas exigem mediação cuidadosa. Na educação infantil, cenas de brincar, convivência e paisagens costumam ser pontos de partida mais adequados.
| Obra ou tema | O que observar | Possibilidades de conversa |
|---|---|---|
| Futebol | Corpos em movimento, bola, campo e grupo. | Jogos conhecidos, regras inventadas e movimentos do corpo. |
| Meninos Brincando | Gestos, interação entre crianças e espaço da cena. | Brincadeiras de ontem e de hoje, amizade e imaginação. |
| Meninos Soltando Pipas | Céu, linhas, cores e sensação de movimento. | Vento, pipas, trajetos e desenhos no ar. |
| O Lavrador de Café | Figura humana, terra, plantas e proporções do corpo. | Trabalho no campo, alimentos e diferentes paisagens. |
| Cenas de festas e grupos populares | Cores, roupas, música sugerida e encontro de pessoas. | Festas da comunidade, ritmos e celebrações. |
Os títulos ajudam a localizar a obra, mas não devem limitar a conversa. Diante de uma pintura de brincadeira, uma criança pode reparar primeiro no céu, outra pode notar uma roupa e outra pode inventar o nome de um personagem. Todas essas observações podem ser acolhidas e retomadas pelo grupo.
Ao utilizar reproduções, é importante informar que a turma está vendo uma imagem da pintura, e não a obra original. Também vale mostrar mais de uma produção do artista, evitando a ideia de que uma pessoa cria sempre do mesmo jeito.
Como escolher e apresentar imagens
Uma boa mediação começa com imagens nítidas, em tamanho que permita ao grupo visualizar detalhes. A reprodução pode ser impressa ou mostrada em uma tela, desde que todos tenham tempo para olhar. Não é necessário revelar imediatamente o nome do artista ou o título: primeiro, as crianças podem explorar o que veem.
Perguntas que favorecem a observação
- O que você vê nesta imagem?
- Quais cores aparecem mais?
- Quem são as pessoas ou personagens? O que elas parecem fazer?
- Que parte da pintura chamou mais sua atenção?
- Se esta cena tivesse som, qual seria?
- O que você imagina que acontece depois?
É preferível dizer “o que faz você pensar isso?” a corrigir uma interpretação rapidamente. A educadora pode ampliar a fala das crianças: “Você percebeu que parece haver vento; vamos procurar pistas na pintura?”. Desse modo, a conversa se apoia na imagem e, ao mesmo tempo, mantém espaço para a imaginação.
Uma roda de apreciação pode durar poucos minutos com os menores e ser retomada em outros dias. Repetir o encontro com a mesma obra permite perceber aspectos que passaram despercebidos antes. Depois da conversa, o título e uma informação simples sobre Portinari podem completar a experiência.
Propostas de atividades a partir das obras
Após observar as imagens, a turma pode criar sem obrigação de copiar a pintura. O planejamento deve oferecer materiais variados e tempo suficiente para experimentar. A produção das crianças tem valor por suas escolhas de traço, cor, composição e narrativa.
Pintura de brincadeiras
Depois de apreciar uma obra com crianças jogando ou correndo, convide cada participante a desenhar uma brincadeira de que goste. Papéis grandes favorecem gestos amplos; tintas, giz de cera e lápis de cor produzem efeitos diferentes. Durante o processo, pergunte sobre os personagens e registre, se possível, as falas que a criança quiser compartilhar.
Mapa de cores e detalhes
Em pequenos grupos, as crianças podem procurar cores predominantes em uma reprodução e separar papéis, tecidos ou objetos de tons semelhantes. Em seguida, criam uma colagem inspirada nas cores observadas, sem precisar representar a mesma cena. A proposta desenvolve atenção visual e vocabulário para falar de claro, escuro, forte, suave, perto e longe.
Brincadeira em movimento
Uma pintura de futebol ou de pipa pode motivar movimentos corporais. O grupo pode imaginar jogadores correndo, pessoas olhando para o alto ou o vento empurrando uma pipa. A proposta não reproduz a cena como teatro fechado: ela incentiva cada criança a criar gestos e percursos, respeitando o espaço e a segurança.
- Apresente a imagem e deixe que o grupo a observe em silêncio por um breve momento.
- Converse sobre movimentos, cores e personagens percebidos.
- Disponibilize materiais ou organize um espaço para a criação.
- Reserve um momento para quem quiser mostrar a produção e contar sobre ela.
- Monte uma exposição com os trabalhos e as falas das crianças, identificando autoria.
Cuidados pedagógicos importantes
É necessário evitar atividades baseadas em moldes prontos, desenhos para colorir ou exigência de que todos façam o mesmo produto. Essas práticas reduzem a autoria e podem fazer a criança acreditar que desenhar bem é imitar um modelo. A inspiração em Portinari deve abrir caminhos de criação, e não padronizar resultados.
Também é importante não simplificar demais a obra ao afirmar que um elemento “significa” apenas uma coisa. Uma figura com pés grandes, por exemplo, pode despertar perguntas sobre tamanho, chão, caminhada e trabalho. A informação histórica pode ser oferecida, mas deve dialogar com o que a turma observou.
Obras que mostram dor, fome ou deslocamento exigem planejamento e linguagem adequada. Elas não precisam ser excluídas de toda trajetória escolar, porém seu uso deve considerar a idade, o contexto da turma e os objetivos pedagógicos. Na educação infantil, o professor precisa acolher reações, não expor crianças a conteúdos perturbadores sem mediação e escolher imagens coerentes com a proposta.
Pontos de revisão
Portinari é uma referência importante da arte brasileira e sua produção oferece muitas possibilidades para a educação infantil. Cenas de brincadeiras, grupos, paisagens e pessoas podem estimular observação, conversa, movimento e criação com diferentes materiais.
- Apresente obras em reproduções de boa qualidade e dê tempo para olhar.
- Faça perguntas abertas e valorize as interpretações das crianças.
- Proponha produções autorais, sem cópia obrigatória.
- Relacione arte, brincadeira, corpo, cores e narrativas.
- Escolha imagens e informações adequadas à faixa etária, com mediação atenta.
Mais do que memorizar nomes de pinturas, as crianças podem aprender que imagens também contam histórias, despertam perguntas e podem inspirar novas maneiras de criar e compreender o mundo.