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Artes e Cultura

Cordel e xilogravura: relação, origem e características

Cordel e xilogravura são expressões marcantes da cultura popular brasileira. Embora tenham linguagens diferentes, tornaram-se profundamente associados nos folhetos vendidos em feiras e mercados.

Por Stefano Barcellos

Publicado em · 9 min de leitura ·Ensino fundamental II, Ensino médio e ENEM

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Cordel e xilogravura são manifestações culturais que se associaram de modo marcante no Brasil: o cordel é uma forma de poesia popular impressa em folhetos, enquanto a xilogravura é uma técnica de impressão feita a partir de uma matriz de madeira entalhada. Nem todo cordel possui xilogravura, mas essa imagem passou a identificar visualmente muitos folhetos, sobretudo os produzidos no Nordeste brasileiro.

Estudar essa relação ajuda a compreender como texto, oralidade, imagem e circulação popular podem formar uma expressão artística rica. O cordel apresenta histórias em versos, muitas vezes feitas para serem lidas, cantadas ou declamadas. Já a xilogravura cria imagens de forte contraste, capazes de antecipar personagens, conflitos e temas narrados na capa.

O que são cordel e xilogravura

A literatura de cordel é uma produção poética popular, tradicionalmente divulgada em pequenos impressos chamados de folhetos. Seus autores são conhecidos como cordelistas ou poetas populares. Os textos podem contar aventuras, romances, acontecimentos históricos, episódios religiosos, sátiras, histórias fantásticas e comentários sobre fatos recentes.

O nome “cordel” remete à maneira como publicações populares eram expostas em cordas ou barbantes em Portugal. No Brasil, a expressão foi adotada posteriormente para nomear uma tradição de poesia impressa muito desenvolvida, especialmente, nos estados nordestinos. Nas feiras, os vendedores e poetas apresentavam seus folhetos ao público, aproximando a leitura da fala e da performance.

A xilogravura, por sua vez, é uma técnica de gravura. O artista desenha ou transfere uma imagem para uma placa de madeira e remove, com ferramentas de corte, as áreas que deverão permanecer sem tinta. Depois, aplica tinta na superfície que restou em relevo e prensa a matriz sobre o papel. Assim, a imagem pode ser reproduzida em várias cópias.

Ideia central: cordel é principalmente uma linguagem literária e poética; xilogravura é uma linguagem visual e uma técnica de impressão. A união das duas ampliou o alcance e a identidade dos folhetos populares brasileiros.

Origem e chegada ao Brasil

A poesia narrativa popular em versos possui raízes antigas na tradição oral europeia. Em Portugal, era comum a venda de folhas impressas com relatos de feitos heroicos, crimes, milagres, amores e notícias. Parte dessa produção era pendurada em cordões, prática que contribuiu para a denominação associada ao cordel.

Com a colonização, influências da cultura portuguesa chegaram ao Brasil e se encontraram com práticas locais de narração oral, cantoria e improviso. Ao longo do século XIX, a expansão das tipografias tornou mais viável imprimir pequenos folhetos. No Nordeste, esses impressos encontraram um público amplo e passaram a dialogar com o cotidiano, o sertão, a religiosidade e os modos de falar da população.

É importante evitar a ideia de que o cordel brasileiro é apenas uma cópia do modelo português. Ele se desenvolveu com características próprias, incorporando ritmos, métricas, temas, personagens e formas de circulação particulares. A presença de cantadores, repentistas e poetas populares foi decisiva para esse processo.

A xilogravura tem origem ainda mais antiga. Técnicas de impressão com matrizes de madeira foram usadas na Ásia e, depois, na Europa, antes da popularização de outros métodos gráficos. No Brasil, ela se difundiu em diferentes contextos de impressão, mas ganhou especial reconhecimento artístico nas capas dos folhetos de cordel do século XX.

Como se formou a relação entre cordel e xilogravura

Nos primeiros tempos da literatura de cordel brasileira, muitos folhetos apresentavam capas tipográficas ou utilizavam clichês: imagens já prontas, feitas em metal ou outros materiais, que podiam ser reaproveitadas pelas gráficas. Com o tempo, artistas passaram a produzir imagens especificamente para os livretos por meio da xilogravura.

A técnica era adequada às condições de produção dos folhetos. Uma matriz de madeira permitia várias impressões, utilizava recursos relativamente acessíveis e produzia imagens expressivas mesmo em papel simples. Além disso, o contraste entre preto e branco atraía a atenção de quem passava pelas feiras e precisava escolher um folheto entre muitos outros.

A capa não era mero enfeite. Ela funcionava como uma apresentação visual da narrativa. Uma figura de cangaceiro, um dragão, uma noiva, um padre, um vaqueiro ou uma cena de desafio já indicava ao leitor o universo da história. Em alguns casos, a imagem não ilustrava exatamente um episódio, mas criava uma atmosfera de humor, mistério ou aventura.

O encontro entre a palavra rimada e a imagem talhada fez do folheto um objeto cultural: ele é, ao mesmo tempo, texto para leitura, suporte de memória e peça visual.

Artistas como J. Borges, Abraão Batista e José Costa Leite contribuíram para consolidar a xilogravura ligada ao cordel como referência da arte brasileira. Suas obras também circularam fora dos folhetos, em exposições, livros, cartazes e coleções, sem perder o diálogo com a cultura popular.

Características da literatura de cordel

O cordel costuma utilizar versos rimados e esquemas métricos regulares. A métrica organiza o número de sílabas poéticas de cada verso; ela favorece o ritmo e a memorização, aspectos importantes em uma tradição próxima da oralidade. Uma forma muito frequente é a sextilha, estrofe composta por seis versos, geralmente com sete sílabas poéticas.

Entretanto, não existe um único formato obrigatório. Os poetas podem empregar setilhas, décimas e outras estrofes, conforme o assunto, a tradição adotada e o efeito desejado. O uso de linguagem direta, repetições e marcas de fala popular também ajuda a aproximar o narrador de seus ouvintes e leitores.

Recursos comuns nos folhetos

  • Rima e ritmo: dão musicalidade ao texto e facilitam a declamação.
  • Narração em versos: apresenta personagens, conflitos e desfechos de maneira sequencial.
  • Oralidade: aproxima a escrita de expressões e entonações presentes na fala.
  • Humor e crítica: permitem comentar costumes, desigualdades e acontecimentos políticos ou sociais.
  • Fantasia e exagero: aparecem em pelejas, façanhas heroicas, animais falantes e seres sobrenaturais.

A regularidade formal não torna o cordel uma produção limitada. Pelo contrário: criar uma história interessante respeitando rimas, ritmo e extensão exige domínio técnico. Os poetas combinam regras tradicionais com invenção, atualizando assuntos e criando novas formas de diálogo com o público.

Técnica e linguagem da xilogravura

Para fazer uma xilogravura, o artista prepara uma matriz de madeira, desenha a composição e utiliza goivas, formões ou lâminas para escavar determinadas partes. O que permanece alto recebe tinta; o que foi retirado tende a aparecer claro no papel. Esse princípio é chamado de impressão em relevo.

O processo exige planejamento, pois a imagem impressa aparece invertida em relação à matriz. Letras, por exemplo, precisam ser entalhadas de modo espelhado para serem lidas corretamente depois da impressão. Também é necessário considerar a resistência da madeira e a pressão aplicada durante a impressão.

ElementoCordelXilogravura
Linguagem principalVerbal e sonoraVisual
Material mais comumPapel impresso em folhetoMatriz de madeira, tinta e papel
Função frequenteNarrar, informar, divertir e criticarIlustrar, sintetizar e atrair o olhar
ReproduçãoPor impressão do textoPor impressão repetida da matriz

A linguagem da xilogravura costuma valorizar contornos fortes, áreas claras e escuras, texturas e simplificação das formas. Essa síntese não significa falta de detalhe: linhas e cortes podem sugerir movimento, profundidade, expressão facial e paisagens. Nas capas de cordel, a imagem precisa comunicar muito em pouco espaço.

Temas, autores e importância cultural

Os folhetos de cordel registram assuntos variados. Há narrativas sobre cangaço, secas, trabalho, migração, festas religiosas, amor, lutas e desafios entre personagens. Também há adaptações de histórias conhecidas, como romances medievais e episódios bíblicos, transformadas pela visão e pelo repertório dos poetas brasileiros.

Outro aspecto relevante é a capacidade de comentar acontecimentos contemporâneos. Durante décadas, o cordel serviu como meio de notícia e interpretação de fatos para comunidades onde o acesso a jornais era reduzido. Ainda hoje, cordelistas escrevem sobre meio ambiente, saúde pública, tecnologia, racismo, direitos das mulheres e outros temas atuais.

Em 2018, a Literatura de Cordel foi reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. O reconhecimento destaca não apenas os textos, mas os saberes envolvidos em sua criação, edição, venda, leitura e transmissão entre gerações.

É inadequado tratar o cordel como uma arte menor ou como simples curiosidade regional. Trata-se de uma produção complexa, com autores, técnicas, circuitos de circulação e diálogo constante com outras artes. A xilogravura associada aos folhetos também ultrapassou o espaço das feiras, tornando-se valorizada por seu vigor estético e por sua importância histórica.

Síntese para revisar

  1. O cordel é uma forma de poesia popular impressa, tradicionalmente divulgada em folhetos.
  2. A xilogravura é uma técnica de impressão em que uma matriz de madeira entalhada é coberta de tinta e prensada sobre o papel.
  3. As duas linguagens se aproximaram porque as gravuras deram identidade visual e chamaram atenção para as capas dos folhetos.
  4. Rima, métrica, oralidade, narrativa e crítica social são características frequentes do cordel brasileiro.
  5. A Literatura de Cordel é patrimônio cultural imaterial brasileiro, reconhecido pelo IPHAN em 2018.

Ao analisar um folheto, observe conjuntamente o texto e a capa. Pergunte quais versos organizam a narrativa, quais temas sociais aparecem e como a xilogravura apresenta personagens ou conflitos. Essa leitura integrada mostra por que cordel e xilogravura permanecem vivos como formas de arte, memória e comunicação.

Dúvidas frequentes sobre o tema

Cordel e xilogravura são a mesma coisa?

Não. O cordel é uma produção literária, geralmente escrita em versos rimados e publicada em folhetos. A xilogravura é uma técnica artística de impressão que pode ilustrar as capas desses folhetos.

Por que a literatura de cordel recebeu esse nome?

O nome está associado à tradição portuguesa de expor folhetos populares em cordas ou barbantes. No Brasil, a expressão passou a designar a produção de poesia popular impressa que se consolidou principalmente no Nordeste.

Todo folheto de cordel tem xilogravura?

Não. Muitos folhetos usaram capas tipográficas, fotografias ou clichês gráficos reaproveitados. A xilogravura tornou-se uma referência visual importante do cordel, mas não é uma exigência para que um texto seja considerado cordel.

Quais são os temas mais comuns do cordel?

O cordel pode tratar de romances, aventuras, religiosidade, cangaço, fatos históricos, humor, crítica social e acontecimentos atuais. Sua variedade temática é uma das razões de sua permanência na cultura brasileira.

Resumo em imagem

Resumo visual: Cordel e xilogravura: relação, origem e características

Referências

  1. Literatura de Cordel: Dossiê de Registro — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) (2018)
  2. Dicionário do Folclore Brasileiro — Luís da Câmara Cascudo (2012)
  3. Literatura de Cordel: patrimônio cultural imaterial brasileiro — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) (2018)
  4. Xilogravura: manual prático — Oswaldo Goeldi (1955)

Sobre o autor

Stefano Barcellos

Stefano Barcellos

Editor responsável e revisor de conteúdo

Escreve e revisa material didático há mais de dez anos, com foco em ciências da natureza e produção de conteúdo educativo para estudantes do ensino médio e candidatos a vestibulares e ao ENEM.

Formação: Direito pela UCPel

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