A fórmula de calor sensível e latente permite calcular a energia térmica trocada por um corpo em duas situações diferentes: quando sua temperatura varia sem mudança de estado físico e quando ocorre fusão, solidificação, vaporização ou outra mudança de estado. Para o calor sensível, usa-se Q = m · c · ΔT; para o calor latente, Q = m · L. Saber identificar o fenômeno descrito é o passo mais importante para escolher a expressão correta.
Calor, temperatura e energia térmica
Na Física, calor é energia em trânsito entre corpos ou sistemas que apresentam temperaturas diferentes. Essa transferência ocorre espontaneamente do corpo de maior temperatura para o de menor temperatura, até que haja equilíbrio térmico. Portanto, um corpo não “tem calor”; ele possui energia interna e pode receber ou ceder calor.
A temperatura, por sua vez, está relacionada ao grau de agitação das partículas de uma substância. Quando uma substância recebe energia e suas partículas passam a se movimentar mais intensamente, sua temperatura geralmente aumenta. Porém, há situações em que o corpo recebe calor sem que a temperatura se altere: isso acontece durante uma mudança de estado físico.
É justamente essa diferença que separa os dois tipos principais de cálculo em calorimetria:
- Calor sensível: provoca variação de temperatura, mas não altera o estado físico da substância.
- Calor latente: provoca mudança de estado físico, mantendo a temperatura constante enquanto a transformação ocorre em condições determinadas de pressão.
Em problemas escolares, costuma-se adotar o Sistema Internacional, no qual a energia térmica é medida em joule, representado por J. Também é comum o uso da caloria, símbolo cal. A conversão aproximada é 1 cal = 4,18 J.
Fórmula do calor sensível
O calor sensível é calculado pela expressão Q = m · c · ΔT. Ela deve ser usada quando uma substância é aquecida ou resfriada e continua no mesmo estado físico. Por exemplo, ao aquecer água líquida de 20 °C para 50 °C, há elevação de temperatura, mas a água permanece líquida.
| Símbolo | Grandeza | Unidade frequente |
|---|---|---|
| Q | Quantidade de calor | J ou cal |
| m | Massa do corpo | kg ou g |
| c | Calor específico da substância | J/(kg · °C) ou cal/(g · °C) |
| ΔT | Variação de temperatura | °C ou K |
A variação de temperatura é dada por ΔT = Tfinal − Tinicial. Assim, se um corpo passa de 15 °C para 45 °C, sua variação é 30 °C. Se ele passa de 80 °C para 20 °C, ΔT é igual a −60 °C. O sinal negativo indica que o corpo perdeu energia térmica.
O calor específico informa quanta energia é necessária para elevar em uma unidade a temperatura de uma unidade de massa de certa substância. A água possui calor específico relativamente alto: precisa receber bastante energia para aumentar sua temperatura. Por essa razão, grandes massas de água, como mares e lagos, ajudam a reduzir variações bruscas de temperatura em regiões litorâneas.
Exemplo de calor sensível
Considere 200 g de água, com calor específico igual a 1 cal/(g · °C), aquecida de 20 °C para 35 °C. Como não há mudança de estado, aplica-se Q = m · c · ΔT. Substituindo os valores, temos Q = 200 · 1 · (35 − 20). Logo, Q = 3.000 cal. Essa é a quantidade de calor absorvida pela água.
É essencial manter as unidades compatíveis. Se a massa estiver em gramas, o calor específico deve estar expresso por grama; se a massa estiver em quilogramas, use um valor de calor específico por quilograma. Misturar unidades leva a resultados incorretos, mesmo que a fórmula tenha sido escolhida corretamente.
Fórmula do calor latente
O calor latente é calculado por Q = m · L. Essa fórmula é usada quando a substância muda de estado físico e sua temperatura não varia durante o processo. A energia fornecida ou retirada reorganiza as partículas, alterando as interações entre elas, em vez de aumentar ou diminuir sua agitação média.
Na expressão, Q é a quantidade de calor, m é a massa e L é o calor latente da transformação. O valor de L depende da substância e do tipo de mudança de estado. Há, por exemplo, calor latente de fusão e calor latente de vaporização.
- Fusão: sólido para líquido; a substância absorve calor.
- Solidificação: líquido para sólido; a substância cede calor.
- Vaporização: líquido para gás; a substância absorve calor.
- Condensação ou liquefação: gás para líquido; a substância cede calor.
Para a água, sob pressão atmosférica normal, a fusão acontece a 0 °C e a ebulição a 100 °C. Enquanto o gelo a 0 °C derrete, por exemplo, a temperatura da mistura de gelo e água permanece em 0 °C até que todo o gelo se transforme em líquido. Nesse intervalo, a energia recebida é calor latente de fusão.
Exemplo de calor latente
Suponha que 50 g de gelo a 0 °C recebam calor até derreter completamente. Considerando o calor latente de fusão do gelo igual a 80 cal/g, aplica-se Q = m · L. Então, Q = 50 · 80 = 4.000 cal. A temperatura final da água recém-formada continua sendo 0 °C, pois o calor foi empregado exclusivamente na fusão.
Se, depois de derreter, essa água for aquecida até 20 °C, será necessário realizar um segundo cálculo com a fórmula do calor sensível. Em processos que possuem etapas diferentes, cada etapa deve ser analisada separadamente.
Como diferenciar as fórmulas
A escolha entre calor sensível e calor latente não depende apenas de palavras como “aquecimento” ou “resfriamento”. O ponto decisivo é observar o que ocorre com a temperatura e com o estado físico. Um corpo pode receber calor em ambos os casos, mas o efeito produzido será diferente.
| Situação | Temperatura | Estado físico | Fórmula |
|---|---|---|---|
| Aquecer cobre de 10 °C a 60 °C | Varia | Não muda | Q = m · c · ΔT |
| Derreter gelo a 0 °C | Constante | Sólido para líquido | Q = m · L |
| Ferver água a 100 °C | Constante | Líquido para gás | Q = m · L |
| Resfriar água de 40 °C a 10 °C | Varia | Não muda | Q = m · c · ΔT |
Regra prática: se o enunciado informa duas temperaturas diferentes para o mesmo estado físico, use calor sensível. Se descreve uma transformação como derretimento ou ebulição a temperatura constante, use calor latente.
Em uma questão mais completa, as duas fórmulas podem aparecer em sequência. Para transformar gelo a −10 °C em água a 20 °C, por exemplo, há três etapas: aquecer o gelo até 0 °C, derretê-lo a 0 °C e aquecer a água líquida até 20 °C. A quantidade total de calor será a soma dos valores obtidos em cada etapa.
Curva de aquecimento e mudanças de estado
A curva de aquecimento é um gráfico que relaciona a quantidade de calor fornecida a uma substância e sua temperatura. Em um aquecimento realizado sob pressão constante, os trechos inclinados indicam calor sensível: a temperatura aumenta enquanto o estado físico é mantido. Os trechos horizontais, chamados patamares, indicam calor latente: há mudança de estado, mas a temperatura permanece constante.
Partindo de um sólido frio, uma substância pode passar pelas seguintes etapas: aquecimento do sólido, fusão, aquecimento do líquido, vaporização e aquecimento do gás. No resfriamento, a sequência se inverte. Essa leitura ajuda a interpretar enunciados extensos e evita a aplicação de uma única fórmula para todo o processo.
Os pontos de fusão e ebulição variam de acordo com a substância e com a pressão externa. Por isso, os valores de 0 °C e 100 °C não devem ser tratados como regras universais: eles se referem à água em condições específicas de pressão. Em locais muito elevados, onde a pressão atmosférica é menor, a água entra em ebulição abaixo de 100 °C.
Como resolver exercícios
Uma resolução organizada reduz erros de interpretação e de unidade. Antes de substituir números nas fórmulas, identifique o estado inicial e final do material, as temperaturas envolvidas e se há transformação física.
- Leia o enunciado e destaque massa, temperaturas, calor específico e calor latente fornecidos.
- Determine se a temperatura varia, se ocorre mudança de estado ou se existem as duas situações.
- Separe o processo em etapas, quando necessário.
- Escolha a fórmula adequada para cada etapa: Q = m · c · ΔT ou Q = m · L.
- Confira a compatibilidade entre as unidades de massa, calor específico ou calor latente.
- Some os valores de Q se a pergunta solicitar a quantidade total de calor.
- Analise o sinal: em convenções usuais, Q positivo indica calor recebido e Q negativo indica calor cedido.
Considere o caso de 100 g de gelo a 0 °C que se transforma em água a 30 °C. Primeiro, ocorre a fusão: Q1 = 100 · 80 = 8.000 cal. Depois, a água é aquecida: Q2 = 100 · 1 · 30 = 3.000 cal. Assim, o calor total recebido é Qtotal = Q1 + Q2 = 11.000 cal.
Não seria correto aplicar diretamente Q = m · c · ΔT desde o início, porque essa fórmula ignoraria a energia necessária para romper parte das interações que mantêm o gelo no estado sólido. Também não bastaria usar apenas Q = m · L, pois, após a fusão, a temperatura da água ainda precisa subir de 0 °C para 30 °C.
Pontos de revisão
O calor sensível está associado à variação de temperatura sem alteração do estado físico e é calculado por Q = m · c · ΔT. O calor latente está associado à mudança de estado físico a temperatura constante e é calculado por Q = m · L. Em ambos os casos, Q representa a energia térmica trocada e m representa a massa do material.
Ao resolver questões, observe primeiro o fenômeno físico, e não apenas os dados numéricos. Verifique se há patamar de temperatura, como na fusão e na ebulição, e divida processos compostos em etapas. Por fim, mantenha todas as unidades coerentes e some os calores das etapas quando o problema pedir a energia total envolvida.