O Cortiço: principais autores e obras é um tema que exige, antes de tudo, uma correção importante: o romance O Cortiço tem um único autor, Aluísio Azevedo. Publicado em 1890, o livro é uma das obras centrais do Naturalismo brasileiro. Para compreendê-lo, é necessário relacionar seu enredo coletivo, seus personagens e sua crítica social às ideias naturalistas e a outros escritores do período.
Quem é o autor de O Cortiço?
Aluísio Azevedo nasceu em São Luís, no Maranhão, em 1857, e morreu em Buenos Aires, em 1913. Foi romancista, jornalista, desenhista e diplomata. Na literatura, tornou-se um nome decisivo para a consolidação do Naturalismo no Brasil, vertente que buscava observar os seres humanos como produtos de fatores biológicos, sociais e ambientais.
O escritor iniciou sua trajetória com romances de tendência romântica, mas passou a produzir obras marcadas pela crítica aos costumes, pela descrição de grupos sociais e pelo interesse em explicar os comportamentos das personagens a partir das condições em que vivem. O Mulato, de 1881, é geralmente apontado como o marco inicial do Naturalismo brasileiro. Já O Cortiço é considerado seu romance mais conhecido e estudado.
Em vez de construir heróis idealizados, Aluísio Azevedo apresenta personagens contraditórias, sujeitas a desejos, conflitos econômicos e pressões do meio. Esse procedimento não significa que o autor faça uma análise científica no sentido atual da palavra. Ele aplica à ficção ideias muito difundidas no século XIX, algumas hoje reconhecidas como limitadas ou preconceituosas, como o determinismo racial e ambiental.
Atenção: Aluísio Azevedo é o autor de O Cortiço. Quando a questão menciona “principais autores e obras”, normalmente espera que o estudante situe o romance entre autores e títulos representativos do Naturalismo, e não que atribua vários autores ao mesmo livro.
O Cortiço e o contexto do Naturalismo
O Naturalismo surgiu na segunda metade do século XIX como uma radicalização de certas propostas realistas. Seus autores valorizavam a observação da realidade, a crítica às idealizações e a influência de teorias científicas em circulação, sobretudo o evolucionismo e o determinismo. O francês Émile Zola foi uma referência fundamental para o movimento.
No Brasil, o Naturalismo se desenvolveu em uma sociedade marcada pela escravidão, que só seria abolida em 1888, pela urbanização gradual, pela imigração e por profundas desigualdades sociais. Publicado dois anos depois da Abolição e um ano após a Proclamação da República, O Cortiço retrata tensões econômicas e sociais do Rio de Janeiro no fim do Império.
O romance focaliza moradores pobres, trabalhadores, imigrantes portugueses e pessoas negras em um conjunto habitacional popular. A obra não oferece uma visão neutra ou completa dessas experiências: ela é atravessada pela linguagem e pelas teorias de seu tempo. Por isso, uma leitura atual deve reconhecer simultaneamente sua importância literária e os estereótipos presentes em algumas caracterizações.
Uma diferença útil para os estudos é que o Realismo costuma concentrar-se mais na investigação psicológica e moral das personagens, enquanto o Naturalismo enfatiza o corpo, a sexualidade, os impulsos e a influência do ambiente. Na prática, os limites entre as duas escolas não são absolutamente rígidos.
Enredo, espaço e personagens principais
O eixo inicial do enredo é João Romão, comerciante português extremamente econômico e ambicioso. Ele constrói e amplia um cortiço, obtendo lucro com os aluguéis e com os negócios que mantém perto da habitação. Para isso, explora o trabalho de Bertoleza, mulher negra que vive com ele e entrega suas economias ao empreendimento.
Ao lado do cortiço está o sobrado de Miranda, também português, cuja vida representa uma posição social mais elevada. A rivalidade entre João Romão e Miranda expressa a disputa por riqueza, prestígio e ascensão social. João Romão deseja abandonar a imagem de homem pobre e aproximar-se da elite, inclusive por meio de um casamento conveniente.
O cortiço reúne muitas histórias. Rita Baiana, conhecida por sua vitalidade e sociabilidade, envolve-se com o português Jerônimo. Inicialmente apresentado como trabalhador disciplinado, Jerônimo muda seus hábitos depois da convivência com o ambiente, a comida, a música e a atração por Rita. Piedade, esposa de Jerônimo, sofre as consequências desse processo. Outra figura importante é Pombinha, cuja trajetória também evidencia as pressões sociais e materiais sobre as mulheres.
Mais do que servir de cenário, o cortiço funciona como elemento central da narrativa. O narrador o descreve como se fosse um organismo vivo, que cresce, se agita e influencia quem o habita. Essa personificação ajuda a explicar por que a obra é frequentemente lida como um romance de protagonista coletivo.
- João Romão: proprietário ambicioso, ligado à exploração econômica e ao desejo de ascensão social.
- Bertoleza: trabalhadora explorada por João Romão; sua trajetória expõe violência e desigualdade racial.
- Miranda: vizinho rico e rival de João Romão, associado ao prestígio social.
- Rita Baiana: moradora de grande presença no cortiço, ligada à mudança de Jerônimo.
- Jerônimo: trabalhador português cuja transformação é explicada pelo narrador por influência do meio.
- Pombinha: personagem cuja trajetória revela restrições impostas às mulheres e a força das condições sociais.
Características naturalistas na obra
O principal conceito associado a O Cortiço é o determinismo. Na perspectiva naturalista, o comportamento de uma pessoa seria condicionado por hereditariedade, ambiente e momento histórico. No romance, essa ideia aparece especialmente nas transformações de Jerônimo e na força atribuída ao próprio espaço do cortiço.
Também se destaca o coletivismo. Embora João Romão conduza parte importante da ação, o livro acompanha vários moradores e mostra relações de trabalho, afetos, rivalidades e violências. O grupo, e não apenas um indivíduo, revela a estrutura desigual da sociedade retratada.
A linguagem tende à descrição detalhada, por vezes crua, de moradias, corpos, conflitos e práticas cotidianas. Há interesse pela sexualidade e pelos impulsos considerados instintivos. Essas escolhas afastam o romance da idealização romântica, mas não eliminam a posição crítica do narrador, que por vezes julga e estereotipa personagens.
| Aspecto | Em O Cortiço | Função no romance |
|---|---|---|
| Determinismo | O meio influencia hábitos e comportamentos, como no caso de Jerônimo. | Explicar a conduta das personagens por fatores externos e biológicos. |
| Personagem coletiva | O cortiço reúne múltiplas trajetórias e é tratado como organismo vivo. | Mostrar a vida social como força que afeta os indivíduos. |
| Crítica social | Exploração do trabalho, pobreza, racismo e busca por status. | Expor desigualdades do Rio de Janeiro oitocentista. |
| Anti-idealização | Personagens têm interesses materiais, desejos e contradições. | Romper com modelos heroicos e sentimentalizados. |
É importante não transformar o determinismo em verdade científica. Ele é uma ideia literária e histórica usada para organizar a narrativa. Ao analisar o livro, vale observar como essa visão limita a liberdade das personagens e como ela pode reforçar preconceitos do século XIX.
Outros autores e obras do Naturalismo
Além de Aluísio Azevedo, outros autores ajudam a entender o Naturalismo em língua portuguesa e suas referências. Adolfo Caminha, por exemplo, publicou Bom-Crioulo, em 1895. O romance trata das relações entre marinheiros, da disciplina militar e da exclusão social, abordando assuntos que causaram forte impacto em sua época.
Inglês de Sousa é outro nome associado ao movimento. Em obras como O Missionário, de 1891, explora conflitos humanos em cenários amazônicos, com atenção às condições sociais e ambientais. Júlio Ribeiro, autor de A Carne, de 1888, também é frequentemente incluído nas discussões sobre o Naturalismo brasileiro por tratar da sexualidade e contestar convenções morais.
Fora do Brasil, Émile Zola é a principal referência. Seu ciclo de romances Les Rougon-Macquart procurava acompanhar uma família sob a influência da hereditariedade e do meio social. O livro Germinal, de 1885, sobre trabalhadores de minas de carvão na França, tornou-se um título emblemático pela crítica às condições de trabalho.
| Autor | Obra | Relação com o tema |
|---|---|---|
| Aluísio Azevedo | O Mulato (1881) | Marco inicial do Naturalismo no Brasil. |
| Aluísio Azevedo | O Cortiço (1890) | Romance coletivo, urbano e socialmente crítico. |
| Adolfo Caminha | Bom-Crioulo (1895) | Aborda marginalização e ambiente da Marinha. |
| Inglês de Sousa | O Missionário (1891) | Examina conflitos humanos na Amazônia. |
| Émile Zola | Germinal (1885) | Referência europeia para o Naturalismo e a crítica social. |
Como interpretar O Cortiço em provas
Em questões escolares, de vestibulares e do ENEM, é comum que um trecho de O Cortiço seja usado para avaliar a identificação de características do Naturalismo. Não basta procurar uma palavra como “ambiente” ou “instinto”: é preciso explicar de que modo a descrição, a ação das personagens ou a voz do narrador constrói essa visão.
Se o fragmento mostrar a transformação de Jerônimo, a resposta pode relacioná-la ao determinismo ambiental. Se apresentar a movimentação dos moradores, convém destacar a personagem coletiva e a ideia de que o cortiço age sobre as pessoas. Quando a questão abordar Bertoleza ou João Romão, a exploração do trabalho e a desigualdade racial são caminhos relevantes de análise.
- Identifique quem narra e quais personagens estão em foco.
- Observe se o espaço é apenas cenário ou se interfere na ação.
- Procure conflitos de classe, raça, gênero, trabalho e ascensão social.
- Relacione descrições de corpo, desejo ou comportamento ao Naturalismo.
- Evite dizer que toda visão do narrador é uma verdade: reconheça o contexto histórico e os estereótipos da obra.
Outro cuidado importante é não reduzir o livro a uma simples denúncia social. Ele critica desigualdades, mas também reproduz pressupostos racialistas e deterministas comuns no período. Uma interpretação consistente reconhece essa ambivalência: a obra é relevante justamente porque permite discutir literatura, sociedade e os limites das ideias que a estruturam.
Síntese para revisar
O Cortiço, publicado em 1890, foi escrito por Aluísio Azevedo e é uma obra fundamental do Naturalismo brasileiro. Seu enredo acompanha a formação e a vida de um cortiço no Rio de Janeiro, destacando a ambição de João Romão, a exploração de Bertoleza e as relações entre diversos moradores.
Para memorizar, associe o romance a cinco pontos: Aluísio Azevedo como autor; Naturalismo como escola literária; determinismo como influência do meio e da hereditariedade; personagem coletiva na representação do cortiço; e crítica social voltada às desigualdades. Entre outros autores e obras do movimento, destaque Adolfo Caminha e Bom-Crioulo, Inglês de Sousa e O Missionário, além de Émile Zola e Germinal.