Para saber como fazer redação dissertativa argumentativa, é preciso compreender que esse gênero exige mais do que expor informações sobre um assunto: ele pede a defesa de uma tese por meio de argumentos claros, pertinentes e bem organizados. Em geral, o texto parte de um problema social, cultural, científico ou político, analisa suas causas e consequências e apresenta um ponto de vista sustentado ao longo da redação.
Em vestibulares e no ENEM, a escrita também é avaliada pela capacidade de responder exatamente ao tema, articular as partes do texto, usar a norma-padrão quando solicitada e construir uma conclusão coerente. Não existe uma fórmula que substitua a reflexão sobre o assunto, mas um método de planejamento torna a produção mais segura e objetiva.
O que é uma redação dissertativa-argumentativa
O termo dissertativo indica que o texto desenvolve ideias e explicações; o termo argumentativo mostra que essas ideias servem para defender uma posição. Portanto, o objetivo não é narrar uma experiência pessoal, descrever detalhadamente um lugar ou apenas listar dados. É discutir uma questão e convencer o leitor de que a tese apresentada é consistente.
A tese é a opinião central que orienta a redação. Ela precisa responder ao problema proposto de modo específico. Se o tema abordar os desafios para combater a desinformação, por exemplo, uma tese possível seria afirmar que a baixa educação midiática e a circulação irresponsável de conteúdos digitais dificultam esse combate. Essa frase já indica dois caminhos para a argumentação.
Uma redação eficiente mantém unidade: introdução, desenvolvimento e conclusão devem tratar do mesmo recorte. Desviar para assuntos apenas parecidos com o tema, como falar somente de tecnologia quando a proposta trata de educação midiática, enfraquece o texto. Antes de escrever, identifique as palavras-chave do enunciado e os limites da discussão.
Ideia central: tese não é um tema. “Desinformação” é tema; “a falta de educação midiática e a responsabilidade limitada das plataformas favorecem a desinformação” é uma tese que pode ser defendida.
Como interpretar o tema e delimitar o recorte
A interpretação começa pela leitura cuidadosa da proposta e dos textos motivadores, quando houver. Eles apresentam informações, perspectivas e conceitos úteis, mas não devem ser copiados nem tratados como resposta pronta. Pergunte: qual problema está em debate? Em que contexto ele ocorre? Que aspecto deve ser analisado? Há um grupo social, período ou espaço delimitado?
Uma técnica simples é reescrever o tema como pergunta. Diante do tema “caminhos para reduzir a evasão escolar no ensino médio”, a pergunta poderia ser: por que estudantes deixam a escola e quais medidas podem reduzir esse problema? A resposta inicial ajuda a formular uma posição. Também é importante separar o assunto geral do recorte solicitado.
| Elemento | Pergunta orientadora | Exemplo |
|---|---|---|
| Tema geral | Sobre o que se fala? | Educação |
| Recorte | Qual problema específico? | Evasão no ensino médio |
| Tese | Qual posição será defendida? | Desigualdade econômica e desinteresse escolar contribuem para a evasão. |
| Argumentos | Como a tese será demonstrada? | Necessidade de renda e currículo pouco conectado à realidade juvenil. |
Delimitar não significa reduzir a complexidade do tema de forma artificial. Significa escolher uma perspectiva viável para o espaço disponível. Uma tese muito ampla, como “a educação brasileira precisa melhorar”, é difícil de provar. Já uma afirmação com causas ou dimensões definidas permite desenvolver raciocínios mais profundos.
Planejamento: problema, tese e projeto de texto
Planejar evita que a redação se torne uma sequência de ideias soltas. Antes do primeiro parágrafo, anote o problema, sua tese, dois argumentos principais e uma possível conclusão. Esse roteiro, muitas vezes chamado de projeto de texto, funciona como um mapa: cada parte terá uma função definida.
- Defina o problema: identifique a questão central exigida pela proposta.
- Formule a tese: apresente uma resposta argumentável para o problema.
- Escolha dois argumentos: prefira causas, consequências, comparações ou princípios que comprovem a tese.
- Separe repertórios úteis: selecione referências que realmente expliquem ou sustentem cada argumento.
- Antecipe a conclusão: retome a discussão e, se o exame pedir, planeje uma proposta viável.
Os argumentos devem ser diferentes, mas complementares. Se ambos repetirem que “falta investimento”, o desenvolvimento ficará circular. Em vez disso, um parágrafo pode analisar a dimensão econômica do problema e outro pode discutir falhas institucionais, culturais ou informacionais. A variedade de perspectivas mostra domínio do raciocínio.
Evite decidir a tese depois de redigir a introdução. Quando a posição não está definida desde o início, é comum aparecerem contradições: o primeiro parágrafo atribui o problema à família, o desenvolvimento fala apenas do Estado e a conclusão propõe ações para as empresas. Todos esses agentes podem participar do debate, mas sua relação deve ser explicada.
Estrutura dos parágrafos
O modelo mais frequente possui quatro parágrafos: introdução, dois desenvolvimentos e conclusão. Ele é útil porque distribui o espaço de forma equilibrada, mas não deve produzir textos mecânicos. O essencial é que cada parágrafo avance a argumentação e se conecte aos demais.
Introdução
A introdução contextualiza o assunto e apresenta a tese. A contextualização pode partir de um dado conhecido, um processo histórico, uma observação social ou uma referência cultural pertinente. Em seguida, o texto deve chegar rapidamente ao problema específico. O último período costuma anunciar os dois argumentos que serão desenvolvidos, sem transformar o parágrafo em uma lista rígida.
Desenvolvimento
Cada parágrafo de desenvolvimento pode seguir uma sequência lógica: apresente uma ideia principal, explique-a, comprove-a ou exemplifique-a e relacione-a à tese. Não basta afirmar que a desigualdade causa evasão escolar; é preciso explicar, por exemplo, que a necessidade de trabalhar reduz o tempo disponível para estudo e pode levar ao abandono da escola.
Um argumento se fortalece quando responde a duas perguntas: por que isso acontece e de que modo esse fato confirma a tese?
Use conectivos para indicar a relação entre as ideias: “nesse sentido”, “além disso”, “como consequência”, “por outro lado” e “portanto” são alguns exemplos. Contudo, eles não resolvem falhas de lógica. A ligação precisa existir no conteúdo, e não apenas nas palavras que iniciam as frases.
Conclusão
A conclusão não deve apenas repetir a introdução. Ela recupera a tese à luz do que foi demonstrado e fecha o percurso argumentativo. Em propostas como a do ENEM, geralmente se espera uma intervenção para o problema discutido. Essa proposta precisa ser relacionada aos argumentos e detalhada de modo suficiente: indique quem deve agir, o que fazer, como fazer, para qual finalidade e, quando couber, quais meios podem ser usados.
Uma medida genérica, como “o governo deve resolver o problema”, tem pouca precisão. É mais consistente especificar, por exemplo, que secretarias de educação podem ampliar programas de permanência estudantil por meio de bolsas, busca ativa e acompanhamento pedagógico, a fim de reduzir obstáculos econômicos e escolares. A proposta deve respeitar a dignidade e os direitos das pessoas envolvidas.
Como selecionar argumentos e repertório
Repertório sociocultural é uma informação, conceito, acontecimento, obra ou conhecimento de outras áreas usado para ampliar a análise. Ele pode vir da história, da sociologia, da legislação, da ciência, da literatura ou de dados estudados em fontes confiáveis. O valor da referência não está em ser difícil ou famosa, mas em sua relação com o argumento.
Uma menção solta a um filósofo ou filme não comprova nada. Depois de apresentar a referência, explique seu sentido e conecte-a ao tema. Ao discutir desigualdade de acesso à educação, por exemplo, um estudante pode mencionar o princípio constitucional de que a educação é um direito de todos. Em seguida, deve analisar como a permanência escolar exige condições materiais e institucionais para que esse direito se concretize.
- Use referências que você compreenda e consiga explicar com precisão.
- Priorize relações diretas entre repertório, argumento e tese.
- Não invente dados, pesquisas, leis ou citações para parecer mais convincente.
- Evite generalizações sobre grupos sociais; apresente causas e contextos.
- Prefira exemplos que aprofundem o raciocínio, não apenas ilustrem o tema.
Também é possível argumentar sem citar autores. Relações de causa e consequência, comparações históricas e análises de políticas públicas podem ser válidas quando são bem explicadas. A qualidade argumentativa depende da coerência do raciocínio e da pertinência das evidências, não do número de nomes mencionados.
Coesão, linguagem e proposta de intervenção
A coesão é a ligação entre palavras, períodos e parágrafos. Ela pode ser construída com conectivos, pronomes, sinônimos e retomadas de ideias. Repetir termos importantes não é necessariamente um erro, sobretudo se a troca por sinônimos alterar o sentido. O problema é a repetição sem função, que deixa a leitura cansativa.
Em contextos formais, empregue linguagem clara e compatível com a norma-padrão. Isso não exige frases excessivamente longas ou vocabulário rebuscado. Períodos diretos, pontuação bem usada e palavras precisas favorecem a compreensão. Revise especialmente concordância, regência, crase, grafia e uso de vírgulas entre sujeito e verbo.
Quando houver exigência de proposta de intervenção, ela deve ser executável em termos gerais e responder à causa discutida. Se o desenvolvimento apontou desinformação, a conclusão precisa propor ações relacionadas à educação midiática, à transparência informacional ou à responsabilização adequada de agentes, em vez de sugerir uma solução sem conexão com a análise anterior.
Revisão e pontos essenciais
Reserve alguns minutos para ler o texto como se fosse outra pessoa. Primeiro, confira se a redação responde integralmente ao tema. Depois, observe a progressão: a tese aparece com clareza? Cada desenvolvimento defende um argumento próprio? A conclusão decorre do que foi analisado? Só então faça uma revisão linguística mais detalhada.
- O tema foi compreendido em seu recorte específico?
- A introdução apresenta uma tese clara e argumentável?
- Os parágrafos desenvolvem razões diferentes para defendê-la?
- Os repertórios foram explicados e relacionados ao ponto de vista?
- Há conectivos que expressem relações lógicas reais?
- A conclusão retoma o debate e, se necessário, propõe uma ação detalhada?
Em síntese, uma redação dissertativa-argumentativa bem construída nasce da combinação entre leitura atenta, planejamento e revisão. Defina uma tese delimitada, desenvolva argumentos explicados com exemplos ou repertórios pertinentes e conclua de forma coerente. A prática de reescrever textos e analisar correções ajuda a perceber padrões de problema e a aperfeiçoar progressivamente a escrita.