Na mitologia grega, a deusa do submundo é Perséfone, também chamada de Kore, termo que significa “donzela” ou “jovem”. Ela é a rainha do mundo dos mortos por ser esposa de Hades, mas sua figura não se limita à morte: Perséfone também está ligada à germinação, às colheitas e ao ciclo anual da vegetação. Seu mito, centrado na separação e no reencontro com sua mãe, Deméter, era uma das narrativas religiosas mais importantes da Grécia Antiga.
É importante evitar uma confusão comum: Hades é o deus que governa o submundo, enquanto Perséfone é sua esposa e rainha. Os gregos chamavam de Hades tanto a divindade quanto, em alguns contextos, o próprio reino dos mortos. Esse lugar não era equivalente ao inferno cristão: reunia, de modo geral, as almas dos falecidos, embora os mitos diferenciassem destinos para pessoas justas, criminosas ou heróis.
Quem é a deusa do submundo?
Perséfone era filha de Deméter, deusa da agricultura, dos cereais e da fertilidade da terra, e de Zeus, principal deus do Olimpo. Antes de se tornar rainha do submundo, aparecia principalmente como Kore, a jovem filha de Deméter. Essa dupla identidade é essencial: Kore expressa a juventude e a vida que nasce; Perséfone, a soberania no mundo subterrâneo e a proximidade com os mortos.
Embora o submundo seja frequentemente imaginado como um local sombrio, Perséfone não era representada apenas como uma divindade assustadora. Em poemas e práticas religiosas, ela podia ser uma figura poderosa, digna de respeito e capaz de acolher ou punir. Sua condição de deusa que transita entre o mundo de cima e o mundo de baixo explica sua associação com a transformação: a semente é enterrada na terra e, depois, volta a brotar.
Ideia central: Perséfone une dois domínios aparentemente opostos: o submundo, relacionado à morte, e a vegetação, relacionada ao renascimento. Por isso, seu mito ajuda a explicar os ciclos da natureza na visão religiosa dos antigos gregos.
O mito do rapto de Perséfone
A versão mais conhecida do mito está no Hino Homérico a Deméter, poema composto provavelmente entre os séculos VII e VI a.C. Perséfone colhia flores em um prado com outras jovens quando uma flor extraordinária chamou sua atenção. Ao aproximar-se dela, a terra se abriu e Hades surgiu em sua carruagem, levando-a para o submundo.
Deméter ouviu os gritos da filha e iniciou uma longa busca. Durante nove dias, percorreu a terra com tochas, sem se alimentar nem descansar. No décimo dia, Hélio, o deus Sol, que tudo vê do céu, contou-lhe que Hades havia levado Perséfone com a autorização de Zeus. Deméter sentiu-se traída e recusou-se a voltar ao Olimpo.
Disfarçada de mulher idosa, a deusa chegou a Elêusis, cidade da Ática. Ali, foi acolhida pela família real local. Depois de revelar sua identidade, ordenou a construção de um templo e passou a viver afastada dos outros deuses. Em sua dor e revolta, Deméter interrompeu sua ação sobre a terra: sementes não germinavam, campos não davam frutos e os seres humanos enfrentavam a fome.
O mito mostra que os deuses gregos não eram apresentados como modelos morais perfeitos. Zeus toma uma decisão sem consultar Deméter, e Hades realiza o sequestro. A narrativa também destaca o enorme poder de Deméter: sem a fertilidade concedida por ela, os sacrifícios humanos aos deuses cessariam, pois não haveria alimento nem sobreviventes para realizá-los.
A romã e as estações do ano
Diante da ameaça de destruição da humanidade, Zeus enviou Hermes, mensageiro dos deuses, para buscar Perséfone. Hades concordou com sua partida, mas ofereceu à jovem sementes de romã. Em muitas versões posteriores, Perséfone come seis sementes; em outras, come quatro. Esse alimento do submundo cria um vínculo que impede seu retorno definitivo à superfície.
Foi então estabelecido um acordo: Perséfone passaria parte do ano com Hades, no submundo, e parte do ano com Deméter, no mundo dos vivos. Quando mãe e filha se reencontram, Deméter devolve a fertilidade à terra. Quando Perséfone parte, a deusa sofre novamente, e a vegetação deixa de florescer.
Essa narrativa oferece uma explicação mítica para as mudanças anuais percebidas nas plantações. Ela não corresponde à explicação científica atual das estações, que envolve a inclinação do eixo terrestre e o movimento de translação da Terra ao redor do Sol. Para os gregos, porém, o mito organizava a experiência humana da semeadura, do crescimento, da colheita e do período de menor produção agrícola.
| Elemento do mito | Sentido associado |
|---|---|
| Descida de Perséfone | Afastamento da vegetação e período de escassez |
| Retorno de Perséfone | Renovação da fertilidade e crescimento das plantas |
| Sementes de romã | Vínculo permanente com o submundo |
| Busca de Deméter | Importância da agricultura para a vida humana |
Perséfone, Hades e Deméter
As relações entre essas três divindades estruturam o mito. Deméter representa a proteção materna e a produção de alimentos; Hades representa o reino invisível dos mortos e as riquezas subterrâneas; Perséfone ocupa uma posição intermediária, pois pertence aos dois mundos. Zeus, como pai de Perséfone e autoridade entre os deuses, interfere na solução final do conflito.
Na cultura popular contemporânea, Hades costuma ser retratado como uma figura maligna. Essa imagem simplifica as fontes gregas. Hades era temido porque a morte é inevitável e porque seu reino era inacessível aos vivos, mas não era necessariamente o grande inimigo dos deuses. Ele cumpria uma função de ordem: receber os mortos e governar o domínio que lhe coube após a divisão do cosmos entre Zeus, Posêidon e ele.
Também é preciso cuidado ao definir Perséfone apenas como vítima passiva. No início do mito, ela sofre uma ação violenta. Entretanto, em outras narrativas, especialmente na Odisseia, ela aparece como uma rainha que exerce autoridade sobre as almas. A diversidade das fontes revela que os mitos mudavam conforme a época, a região e a finalidade religiosa ou literária de quem os narrava.
- Deméter: agricultura, cereais, fertilidade e proteção da filha.
- Perséfone: rainha do submundo, juventude, passagem e renovação.
- Hades: soberano do mundo dos mortos e das riquezas abaixo da terra.
- Zeus: autoridade divina que participa do acordo entre os envolvidos.
- Hermes: mensageiro que conduz Perséfone para fora do submundo.
Cultos e Mistérios de Elêusis
O mito de Deméter e Perséfone não era somente uma história contada pelos gregos. Ele fundamentava práticas religiosas, principalmente os Mistérios de Elêusis. Realizados na cidade de Elêusis, próxima a Atenas, esses ritos reuniam participantes de diferentes cidades gregas e tinham grande prestígio durante séculos.
Os iniciados participavam de procissões, jejuns, purificações e cerimônias cujo conteúdo completo era mantido em segredo. Por isso, os historiadores não conseguem reconstituir todos os detalhes. Sabe-se, porém, que os Mistérios se relacionavam à promessa de uma condição mais favorável após a morte. A experiência religiosa dava aos participantes esperança e reforçava os vínculos com Deméter e Perséfone.
Homens, mulheres, pessoas escravizadas e estrangeiros que falavam grego podiam, sob certas condições, ser iniciados. Isso não eliminava as desigualdades da sociedade grega, mas mostra a importância ampla desse culto. A religião antiga não possuía um único livro sagrado nem uma doutrina fixa: rituais locais, poemas, santuários e tradições orais formavam um conjunto variado de crenças.
O mito de Perséfone não deve ser lido como uma explicação científica das estações, mas como uma forma religiosa e simbólica de compreender a dependência humana em relação à terra, ao alimento e à morte.
Símbolos e interpretações do mito
A romã é um dos símbolos mais conhecidos de Perséfone. Por possuir muitas sementes e uma cor intensa, foi associada à fertilidade, ao sangue, à vida e à morte. No mito, ela representa principalmente a ligação irreversível da deusa com o submundo. Depois de prová-la, Perséfone não pode voltar a ser apenas Kore, a jovem que vivia com a mãe.
Flores, espigas de trigo, tochas e o trono do submundo também aparecem em representações ligadas à deusa. As flores recordam o momento do rapto e a fragilidade da juventude; as espigas apontam para Deméter e a agricultura; as tochas lembram a busca da mãe; o trono expressa a autoridade de Perséfone como rainha.
Estudiosos analisam o mito por diferentes perspectivas. Uma leitura agrícola ressalta a alternância entre a semente enterrada e a planta que volta a crescer. Uma leitura social observa o casamento e a saída da jovem da casa materna, fatos importantes nas sociedades gregas antigas. Há ainda interpretações que destacam o luto, a separação e a passagem da infância para uma nova condição. Nenhuma dessas leituras precisa excluir as demais, pois os mitos costumam ter sentidos variados.
Pontos de revisão
Perséfone é a principal deusa associada ao submundo grego porque se torna esposa de Hades e rainha de seu reino. Ao mesmo tempo, ela continua ligada à fertilidade da terra por ser filha de Deméter. Essa combinação torna sua figura central para compreender a religião, a agricultura e as ideias gregas sobre vida e morte.
- Hades é o deus do submundo; Perséfone é sua rainha.
- Perséfone é filha de Deméter e Zeus.
- O rapto e o retorno parcial da deusa explicam, no plano mítico, os ciclos da vegetação.
- A romã simboliza o vínculo de Perséfone com o reino dos mortos.
- Os Mistérios de Elêusis eram cultos importantes dedicados a Deméter e Perséfone.
- Os mitos gregos possuíam versões diferentes e devem ser estudados conforme suas fontes e seus contextos.
Ao estudar essa narrativa, vale lembrar que ela expressa uma visão de mundo antiga. Mais do que contar a trajetória de uma deusa, o mito articulava questões essenciais para os gregos: de onde vem o alimento, por que a natureza se transforma, como lidar com a perda e o que pode existir depois da morte.