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Filosofia e Ética

Exercícios sobre Sartre com gabarito comentado

Revise os conceitos centrais de Jean-Paul Sartre e pratique com questões objetivas e discursivas comentadas. O material destaca temas recorrentes no ensino médio, vestibulares e ENEM.

Por Stefano Barcellos

Publicado em · 9 min de leitura ·Ensino médio

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Exercícios sobre Sartre com gabarito ajudam a revisar uma ideia decisiva do existencialismo: o ser humano não nasce com um destino ou uma natureza fixa que determine totalmente suas escolhas. Para Jean-Paul Sartre, cada pessoa constrói a si mesma por meio de seus atos e, por isso, é livre e responsável. As questões a seguir retomam esses conceitos de modo adequado ao ensino médio, aos vestibulares e ao ENEM.

Quem foi Jean-Paul Sartre

Jean-Paul Sartre foi um filósofo, escritor e intelectual francês, nascido em 1905 e falecido em 1980. É um dos principais representantes do existencialismo no século XX. Embora o termo reúna autores diferentes, como Søren Kierkegaard, Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger e Simone de Beauvoir, Sartre formulou uma versão própria, marcada pela defesa radical da liberdade humana.

Além de obras filosóficas, Sartre escreveu romances, peças teatrais e ensaios políticos. Entre seus livros mais conhecidos estão O Ser e o Nada, de 1943, e O Existencialismo é um Humanismo, texto baseado em uma conferência de 1945. Em suas obras literárias, ele também explora angústia, escolha, conflito com os outros e busca de sentido.

Nas provas, Sartre costuma aparecer associado à ideia de que os seres humanos não possuem uma essência pronta e universal que defina, antes da vida, o que devem ser. A existência concreta, vivida em situações históricas e sociais, vem antes de qualquer definição acabada do indivíduo.

Atenção: Sartre não afirma que a pessoa possa fazer absolutamente tudo o que desejar. Ela escolhe em circunstâncias que não escolheu, como época, corpo, condições materiais e presença de outras pessoas. Ainda assim, deve decidir o que fazer diante dessas condições.

A existência precede a essência

A frase “a existência precede a essência” resume um núcleo do pensamento sartreano. Para entendê-la, é útil comparar um objeto fabricado com um ser humano. Antes de produzir uma cadeira, por exemplo, alguém planeja sua função e sua forma: a finalidade do objeto orienta sua fabricação. Nesse caso, a essência, entendida como projeto ou definição, vem antes de sua existência concreta.

Segundo Sartre, isso não ocorre com o ser humano. Não existe uma natureza humana fixa, estabelecida por Deus, pela biologia ou por qualquer princípio abstrato, capaz de definir completamente cada indivíduo antes de suas ações. A pessoa primeiro existe, encontra-se no mundo e, ao longo da vida, constrói seus valores, projetos e modos de ser.

Essa tese não elimina características biológicas, influências sociais ou limites materiais. Ela recusa, porém, que esses fatores sejam uma justificativa definitiva para dizer que alguém está condenado a possuir determinado caráter ou destino. Um estudante pode enfrentar desigualdades reais, mas suas condições não constituem uma essência imutável que dispense toda iniciativa e toda decisão.

ConceitoSentido em SartreErro comum em questões
ExistênciaVida concreta do indivíduo, situada no mundo.Confundi-la com uma simples presença física, sem escolhas.
EssênciaDefinição fixa do que algo é ou deve ser.Afirmar que ela determina previamente toda pessoa.
ProjetoDireção construída pelos atos e escolhas.Tratá-lo como destino garantido ou plano sem obstáculos.

Liberdade, responsabilidade e má-fé

Se não há uma essência predeterminada que resolva por nós o que devemos ser, então escolher é inevitável. Sartre chama essa condição de liberdade. A expressão “o homem está condenado a ser livre” parece paradoxal, mas indica que ninguém pode escapar inteiramente da necessidade de se posicionar. Inclusive recusar uma decisão ou obedecer passivamente a uma ordem constitui uma maneira de agir.

Essa liberdade produz responsabilidade. Ao escolher, a pessoa não apenas revela preferências momentâneas: ela assume um modo de construir a própria vida e apresenta uma imagem do que considera valioso. Daí vem a angústia. Ela não é apenas medo de um perigo externo; é a percepção de que não há uma regra absoluta capaz de garantir antecipadamente que uma escolha será correta.

Em Sartre, a liberdade também está ligada à situação. Ninguém escolhe nascer em determinado país ou época, nem controla todos os acontecimentos. Essas condições formam a facticidade, isto é, os dados concretos com os quais cada indivíduo precisa lidar. A liberdade se manifesta na maneira como alguém responde a esses dados, elabora projetos e age, não em uma suposta independência total do mundo.

O que é má-fé

A má-fé ocorre quando uma pessoa tenta negar sua própria liberdade ou reduzir-se a um papel fixo, como se fosse apenas uma coisa. Um exemplo seria alguém afirmar: “Não tenho escolha; sou assim e nunca poderei agir de outro modo”, usando essa frase para evitar reconhecer alternativas e responsabilidades. O indivíduo pode ter dificuldades reais, mas a má-fé aparece quando transforma circunstâncias e funções sociais em desculpa para abandonar toda possibilidade de escolha.

Não se deve confundir má-fé com mentira comum. Na mentira, geralmente alguém conhece uma informação e procura enganar outra pessoa. Na má-fé, há uma tentativa de enganar a si mesmo: o sujeito simultaneamente percebe, em algum nível, sua liberdade e procura escondê-la de si para fugir da angústia.

Para Sartre, a liberdade não significa ausência de limites; significa que, mesmo em uma situação limitada, os atos participam da construção do sentido que a pessoa dá à própria vida.

Como resolver questões sobre Sartre

Em questões objetivas, observe verbos e expressões que atribuem ao ser humano um destino inflexível, uma personalidade definitivamente pronta ou uma desculpa completa para não agir. Essas formulações tendem a contrariar o existencialismo sartreano. Também desconfie de alternativas que definam liberdade como poder ilimitado, pois Sartre considera a situação concreta e os limites factuais.

  • Associe “existência precede essência” à crítica de uma natureza humana pronta e predeterminada.
  • Relacione liberdade à escolha inevitável, e não à capacidade de realizar qualquer desejo.
  • Relacione responsabilidade às consequências e ao sentido assumido pelos atos.
  • Identifique a má-fé quando há fuga da liberdade por meio de papéis, desculpas ou determinismos absolutos.
  • Diferencie condições sociais e materiais, que são reais, de determinismos que eliminariam toda ação possível.

Em textos do ENEM, a filosofia de Sartre pode ser relacionada a trabalho, vida pública, identidade, escolhas morais e relações sociais. A interpretação deve partir do trecho apresentado. Não basta reconhecer palavras como “liberdade” ou “angústia”: é necessário verificar se elas têm o sentido existencialista discutido pelo autor.

Exercícios objetivos sobre Sartre com gabarito

  1. Para Sartre, a afirmação de que a existência precede a essência significa que:

    1. cada pessoa possui uma natureza fixa desde o nascimento.
    2. os valores morais são definidos por uma autoridade universal antes de toda experiência.
    3. o indivíduo constrói a si mesmo por escolhas e ações em situações concretas.
    4. a liberdade humana elimina limites históricos e materiais.
    5. os objetos e as pessoas são produzidos da mesma maneira.
  2. Um candidato afirma que não pode mudar sua postura porque “nasceu para obedecer” e porque seu cargo define por completo quem ele é. Na perspectiva sartreana, essa atitude exemplifica principalmente:

    1. a autenticidade.
    2. a má-fé.
    3. a transcendência religiosa.
    4. o determinismo científico.
    5. a neutralidade moral.
  3. A expressão “condenado a ser livre”, em Sartre, indica que o ser humano:

    1. não pode realizar escolhas, pois está submetido ao acaso.
    2. dispõe de poder ilimitado sobre a realidade.
    3. precisa escolher e responder por seus atos, mesmo diante de limites.
    4. deve seguir uma essência estabelecida antes de nascer.
    5. encontra sempre uma solução moral previamente pronta.
  4. Assinale a alternativa compatível com a noção sartreana de situação:

    1. As circunstâncias sociais anulam necessariamente toda liberdade.
    2. A liberdade existe fora do tempo, do corpo e das relações sociais.
    3. Os limites concretos existem, mas a pessoa ainda se posiciona e age diante deles.
    4. As escolhas individuais não possuem efeitos sobre a vida do sujeito.
    5. O indivíduo é apenas resultado passivo de influências externas.

Gabarito comentado

1. C. Para Sartre, a pessoa não recebe uma essência pronta; ela se define na existência, por seus atos e projetos. A letra D erra ao apresentar liberdade ilimitada.

2. B. O personagem trata seu papel social como destino inalterável para evitar reconhecer sua margem de escolha. Essa fuga da responsabilidade caracteriza a má-fé.

3. C. A fórmula destaca que não há como fugir totalmente de escolher. A liberdade é vivida sob limites, o que exclui a alternativa B.

4. C. Sartre reconhece condições dadas, chamadas de facticidade, mas não conclui que elas retirem toda capacidade de posicionamento e ação.

Questões discursivas comentadas

1. Explique por que a frase “a existência precede a essência” se opõe à ideia de que uma pessoa possui um destino moral pronto.

Resposta comentada: A frase afirma que o indivíduo não é definido de modo completo antes de viver e agir. Em vez de receber um destino moral fixo, ele constrói seu modo de ser por escolhas realizadas em situações concretas. Isso não significa negar influências e limites, mas recusar que eles decidam integralmente quem alguém será.

2. Uma estudante diz que não é responsável por ter deixado de participar de um trabalho coletivo, pois “as pessoas tímidas são naturalmente incapazes de falar”. Analise a situação com o conceito de má-fé.

Resposta comentada: A timidez pode ser uma dificuldade real e deve ser considerada na situação concreta da estudante. Porém, se ela usa essa característica como explicação absoluta para negar qualquer possibilidade de agir, dialogar ou buscar outra forma de participar, aproxima-se da má-fé. Para Sartre, reduzir-se inteiramente a uma característica fixa pode servir como fuga da liberdade e da responsabilidade.

Pontos de revisão

Sartre defende que o ser humano existe antes de possuir uma definição acabada de si. Por isso, suas escolhas participam da construção de seu projeto de vida. A liberdade é inevitável, mas ocorre em situações reais, atravessadas por limites e circunstâncias que não foram escolhidos.

  • Existência precede essência: não há natureza humana fixa que determine integralmente cada pessoa.
  • Liberdade: necessidade de escolher e de se posicionar no mundo.
  • Responsabilidade: compromisso com os atos e seus sentidos.
  • Angústia: consciência de que não existe garantia absoluta para as escolhas.
  • Má-fé: tentativa de fugir da liberdade ao se tratar como coisa ou papel imutável.

Ao resolver exercícios, procure a alternativa que reconhece simultaneamente a liberdade e as condições concretas da existência. Essa combinação evita dois equívocos frequentes: imaginar um indivíduo totalmente determinado pelas circunstâncias ou imaginar uma liberdade sem limites materiais e sociais.

Dúvidas frequentes sobre o tema

O que Sartre quis dizer com “a existência precede a essência”?

Sartre quis dizer que o ser humano não nasce com uma definição completa e um destino pronto. Cada pessoa se constrói por seus atos, escolhas e projetos ao longo da vida, em situações concretas.

O que é má-fé para Sartre?

Má-fé é a tentativa de fugir da própria liberdade e responsabilidade. Ela aparece quando alguém se reduz a um papel, traço ou circunstância para afirmar que não possui nenhuma possibilidade de escolha.

Sartre defendia uma liberdade sem limites?

Não. Sartre reconhece limites como condições sociais, corpo, passado e acontecimentos que não dependem da vontade individual. A liberdade consiste em tomar posição e agir diante dessas condições, não em controlá-las completamente.

Qual é a relação entre liberdade e angústia em Sartre?

A angústia surge quando a pessoa percebe que precisa escolher sem possuir uma garantia absoluta de acerto. Como as escolhas ajudam a definir o próprio projeto de vida, elas envolvem responsabilidade.

Resumo em imagem

Resumo visual: Exercícios sobre Sartre com gabarito comentado

Referências

  1. O Existencialismo é um Humanismo — Jean-Paul Sartre, Editora Vozes (2014)
  2. O Ser e o Nada: ensaio de ontologia fenomenológica — Jean-Paul Sartre, Editora Vozes (2015)
  3. Convite à Filosofia — Marilena Chaui, Editora Ática (2010)
  4. Sartre: uma introdução — Christina Howells, L&PM Editores (2011)

Sobre o autor

Stefano Barcellos

Stefano Barcellos

Editor responsável e revisor de conteúdo

Escreve e revisa material didático há mais de dez anos, com foco em ciências da natureza e produção de conteúdo educativo para estudantes do ensino médio e candidatos a vestibulares e ao ENEM.

Formação: Direito pela UCPel

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